O policial militar William Oliveira, que trabalhou no resgate de uma família que era mantida em cárcere privado há 17 anos em uma casa em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, conta que mesmo os agentes que atenderam a ocorrência ficaram chocados com o cenário que encontraram.
“Eu sou pai. Tenho uma filha de 8 anos. Acredito que não há preparo para esse cenário. Por mais que a gente esteja habituado a ter notícias negativas, nada prepara a gente emocionalmente para se deparar com uma situação dessas, sobretudo pelo tempo de cárcere. Dezessete anos. É uma vida inteira subjugada a uma situação sub-humana”, disse o policial.
O agente chegou após um primeiro grupo de policiais militares localizarem o local e encontrarem a situação em que a família vivia.
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O PM contou que a situação era tão grave que chegou a achar que os filhos do casal eram crianças, e não adultos.
“Assim que eu cheguei no local imaginei que fossem crianças, devido a compleição física. Eram pequenos. Imaginei que fossem crianças. Só posteriormente, quando a gente encontrou o registro, que percebemos que se tratava de jovens: a menina de 22 anos e o rapaz de 19 anos,” contou o agente.
Luiz Antonio Santos Silva, não apresentou resistência aos PMs e, segundo os agentes que atenderam o caso, parecia deslocado da realidade. Ele foi preso após uma denúncia anônima e vai responder por sequestro ou cárcere privado; vias de fato; maus-tratos e tortura.
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a mulher e os dois filhos apresentavam quadro de desidratação e desnutrição grave, porém foram estabilizados e seguem recebendo cuidados clínicos e acompanhamento dos serviços social e de saúde mental.
William destacou que foi preciso controle emocional para fazer o resgate e lidar com o caso.
“Assim que a gente se depara com a situação, a gente fica emocionado, mas tem que manter o controle emocional para preservar a integridade da guarnição, para preservar a saúde das vítimas e até do próprio ofensor. Porque a nossa missão é entregá-lo às autoridades com a integridade respeitada”, disse.
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Fotos mostram jovem amarrado em casa onde mãe e filho eram mantidos em cárcere privado em Guaratiba — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Os filhos do casal estavam amarrados quando os policiais chegaram na casa. Eles não falavam e pareciam agitados. A mulher estava bastante debilitada. Diante da situação, os policiais perguntaram se estavam com fome e sede.
“E eu perguntei a ela se estava com fome, com sede. E ela passou para mim que estava com fome, mas ele não deixava as crianças comerem. Eu falei para ela que aquele cenário tinha acabado e se ela tivesse alguma coisa, poderia dar para as crianças. Ela disse que o vizinho tinha dado um pedaço de pão e foi então que ela deu para as crianças naquele momento”, contou o PM.
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Portão da casa em Guaratiba onde família viveu trancada por 17 anos — Foto: Cristina Boeckel/g1 Rio
O policial fez questão de parabenizar os colegas que chegaram ao local primeiro, que fizeram questão de atender a ocorrência e ir até a casa da família para ver o que estava acontecendo. E destacou as dificuldades de acesso, já que o lugar fica em uma ladeira sem asfalto.
“A gente fazer parte disso, os policiais que chegaram antes, são herói que foram incansáveis. Os senhores podem verificar que o acesso é difícil. Foi a insistência deles em localizar o local e fazer o resgate, de libertar essa família”, ressaltou.
Ele lembra que o cenário que encontrou na casa era o pior possível.
“Um ambiente insalubre, uma casa extremamente suja, desorganizada. Um cenário desolador, uma condição sub-humana de habitação. Não tinha saneamento, não tem água encanada. Um cenário realmente desolador,” disse William
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Casa onde a família foi encontrada — Foto: Reprodução
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Outra foto do interior da casa conde uma mulher e seus dois filhos eram mantidos em cárcere privado — Foto: Reprodução
Vizinhos
Vizinhos da casa em Guaratiba contam que achavam o local estranho, mas não tinham certeza do que se passava lá dentro. Quando a Polícia Militar chegou, todos que vivem na área ficaram em choque. Uma mulher disse que se surpreendeu com a aparência da filha do casal.
“Chorei quando eu a vi saindo. Você olhava e dava uns 8 anos para ela”, disse a mulher, que não quis ser identificada.
Eles relatam também o choque com a aparência de fraqueza da mulher. Muitas pessoas nem sequer sabiam que havia uma família dentro do imóvel. Alguns achavam que a casa estava abandonada. Outros pensavam que o homem achado e preso no local vivia sozinho.
“Eu nunca os vi e moro por aqui há mais de dez anos”, disse um morador.
Os moradores contam que a família vivia de doações, mas só o dono da casa as recebia. A mulher não podia abrir a porta.
“Às vezes ele recebia, mas quando ele não estava não conseguiam entregar”, disse outro morador sem se identificar.
Em depoimento à polícia, a mãe mantida trancada com os filhos contou que os três sofriam violência física e psicológica de forma permanente e que chegavam a ficar três dias sem comer.
Detalhes levantaram suspeitas
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Luiz Antonio Santos Silva foi preso por manter a família em cárcere privado — Foto: Reprodução
As suspeitas de que a família vivia presa vieram de pequenos detalhes.
“Numa brecha do portão, a mulher colocou os olhos na fresta da porta e pediu comida”, contou um morador.
Outro conta que conseguiu ver os filhos do casal, também pela pequena abertura da porta.
Uma mulher disse que os próprios funcionários do Samu, chamados para prestar atendimento médico aos três resgatados, se surpreenderam com a situação.
Moradores contaram que o som alto incomodava toda a vizinhança.
“A gente sabia que tinha uma família, que colocava o som alto, mas a gente não sabia a gravidade disso. Eu estou chocada, passada”, contou a doméstica Isabel Souza.
“O som era alto pra caramba. Ele era nervoso, estranho”, contou o barbeiro André Santos.
O homem preso era conhecido como DJ por conta da música alta, usada para abafar os gritos da família.
Denúncias não deram em nada
Vários moradores contam que já chegaram a ver trabalhadores da área da saúde falando com o homem pela porta do imóvel, mas nunca entrando.
Porém, eles contam que, pelo menos há dois anos, chegaram a denunciar para uma viatura e os policiais foram ao local, mas nada aconteceu.
O caso é investigado pela 43ª DP (Guaratiba).
FONTE: SITE G1


